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terça-feira, agosto 07, 2007

Pausa na paulada

Hoje eu quero dar uma pausa nas críticas (merecidas) ao lulo-petismo e fazer uma análise do fato da popularidade de Lula da Silva se manter em níveis altos, apesar de todos os escândalos havidos, da corrupção, do clientelismo, da incompetência e da má administração em diversos setores do governo brasileiro.

Assisto e participo de manifestações críticas ao governo federal. Pertenço a um segmento da sociedade que procura estar sempre informado sobre política, economia, cotidiano, etc. No caso da economia o faço até por dever de profissão, pois preciso saber onde está a oportunidade de trabalho para poder sobreviver.

O governo lulo-petista se apóia em um tripé básico para se manter na crista da onda. Inflação baixa, Assistencialismo barato e Propaganda massiva de manipulação popular.Não incluí nessa base o aspecto ética e honestidade, pois é caso comprovado que esse governo e sua base de apoio não aparentam nem demonstram ter nenhuma das duas qualidades.

Vamos lá:

Inflação baixa

As pessoas mais pobres, mais humildes, embora na sua maioria saibam do que acontece, focam mais naquilo que lhes interessa para a sobrevivência imediata, exatamente como eu faço ao acompanhar os fatos econômicos. Só que a este pessoal interessa na realidade o custo de vida, a manutenção do seu emprego, do seu "bico", os “poucos, malditos, mas no bolso” que lhes garantem o pão nosso do dia a dia. Assuntos como corrupção, apagão aéreo, PAC que não anda, não interessam pois não enchem barriga.
Independente do fato notório do lulo-petismo ter se apropriado do modelo de estabilização do governo anterior, a inflação baixa é o principal ponto de apoio das massas ao governo. Se forem analisar a evolução de preços dos alimentos, constatarão que os produtos de consumo de massa subiram muito menos em comparação aos produtos ditos supérfluos no período do governo Lula. O arroz, o feijão, a farinha, o óleo de cozinha,a galinha, o ovo, que são os alimentos básicos da população subiram muito pouco e/ou tiveram seus impostos reduzidos para manter os preços. E é isso que o povão apóia. Na outra ponta, produtos industrializados, de maior valor agregado, tiveram aumentos superiores à média, fazendo com que a inflação se mantivesse numa média de 3 ou 4% ao ano a partir de 2004. É bom lembrar que a fórmula de cálculo da inflação embute um forte componente da taxa de câmbio. A retórica raivosa petista em 2002 fez com que naquele ano a inflação se acelerasse num puro movimento especulativo que levou o dólar à estratosfera e por conseqüência a taxa inflacionária. Ninguém me tira da cabeça que aquele movimento “morde-assopra” pré-eleição foi pensado e orquestrado para desestabilizar momentaneamente o Plano Real e ganhar a disputa eleitoral. Uma vez passadas as eleições, as coisas se ajeitariam novamente como se ajeitaram, já que as bases macroeconômicas estavam implantadas e solidificadas e os ventos externos sopravam favoravelmente. Ninguém seria louco de provocar inflação.
Todos sabem que o maior imposto de todos é a carestia, a inflação, que corrói indistinta e diariamente os ganhos de quem não tem como se defender dela. Para manter a inflação baixa, tanto no Plano Real como até agora, é necessário um aperto fiscal e uma política de juros altos. Até aí tudo bem. A compensação seria a redução de gastos públicos o que não aconteceu ao contrário, aumentou de forma impressionante e assustadora com a retomada lulo-petista da estatização do setor público. Esta ação inibiu investimentos privados e mesmo os investimentos públicos em infra-estrutura, o crescimento mais acelerado, a criação de empregos e retirou mais recursos via impostos da população de maior renda. Nesse caso o setor social mais atingido foi a classe média que perdeu emprego, renda e passou a ser cada vez mais dependente de crédito bancário para tentar manter seu “status-quo”. Hoje a taxa cambial lá embaixo, ajuda e muito a manter a inflação nos patamares em que está.

Assistencialismo barato

Para compensar a baixa geração de empregos e o baixo crescimento, que mantém a taxa de desemprego há 10 anos no patamar de 10% (equivalente hoje a quase 10 milhões de pessoas, a maioria da classe média), o governo aproveitou a idéia do Bolsa-Escola de Cristóvam Buarque, implantado no governo FHC e de forma pragmática e inteligente o transformou no Bolsa-Família que proporciona uma renda adicional ao segmento mais miserável da sociedade sem a contrapartida do trabalho. Esse dinheiro extra está proporcionando a oportunidade dessas pessoas de adquirirem produtos de consumo que antes só viam nas vitrines e gôndolas ou nas telas de TV e que eram exclusivos dos segmentos da sociedade de maior poder aquisitivo.Mais um gol a favor da popularidade do lulo-petismo. Alguém poderia me contestar dizendo que o Bolsa-Família é para as necessidades básicas do cidadão que não tem renda. Pura falácia.Na prática é diferente. Por mais miserável que seja o cidadão, ele sempre auferiu uma renda que lhe garantisse o básico.O IBGE demonstra isso quando aponta que os 40% mais pobres têm renda média de 240 reais mensais. Com um terço deste valor, pode-se adquirir cestas básicas que garantem a alimentação decente de uma família de 4 pessoas por um mês. O Bolsa-Família agrega uma renda extra que proporciona ao cidadão comprar aquele tênis de imitação, aquela roupinha mais incrementada, o celular pré-pago usado por 20 reais, o tocador portátil de CD´s (que substituiu o famoso radinho de pilha), o “danoninho”, símbolos do consumismo que antes só eram acessíveis às classes mais abastadas. Nada mais justo que todos possam ter acesso a este consumo mas sem a contrapartida do trabalho que dá um valor moral à aquisição, fica difícil defender a iniciativa. E isso custa pouco ao governo (12,5 bilhões de reais por ano – 3% da arrecadação de tributos federais), face ao resultado em termos de aprovação de pelo menos 20 milhões de cidadãos.

Agregado a isto, o governo lulo-petista facilitou o crédito através do sistema consignado, facilitando aos mais pobres a aquisição de bens duráveis como TV´s, fogões, geladeiras em suadas prestações. O segmento mais pobre com emprego fixo, na faixa de 1 a 2 salários mínimos (e aí se incluem os empregados domésticos com carteira assinada pelas patroas de classe média e aposentados e pensionistas do INSS) se aproveitou dessa facilidade. Os juros da ordem de 3%, 4% mensais nessa modalidade, são compensados pelos agentes financeiros com os juros extorsivos de 8 a 11% mensais oferecidos às classes mais abastadas. Assim, cria-se uma falsa sensação de bem-estar social nos setores mais desfavorecidos, o que justifica a sua aprovação ao governo, mas não cria perspectivas de evolução da renda deste segmento de população a médio e longo prazo.

Propaganda massiva de manipulação popular

Uma vez implantadas as ações anteriores, a propaganda de manipulação habilmente montada por Duda Mendonça, consolidou a sensação de bem-estar com os motes “nunca antes neste país”, “herança maldita”, “opção pelos pobres” e tantos outros que vimos. Além disso, para prevenir a reação (esperada) da classe média que foi a mais prejudicada pelo sistema, foi ativada a milícia desqualificadora de opiniões contrárias, taxando sistematicamente os críticos de golpistas, de anti-democráticos, fossem eles de que classe social ou política ou econômica fossem. Omissão das falhas e exacerbação de realizações por menores que sejam é o ponto central da propaganda de massas. Em maior ou menor escala, todos os políticos sempre usaram desse artifício mas o lulo-petismo levou e leva essa ação ao extremo.

O lulo-petismo mantém um sistema eficiente de informação e contra-informação consolidado.Existe por trás das cortinas do Planalto e dos Ministérios um grupo de inteligência plenamente dedicado a esta função. E não nos enganemos, é um grupo atento, muito bem aparelhado e eficaz.

Neste sistema inclui-se o culto à personalidade, metodologia de manipulação que mascara as mazelas e realidades. Lula é apresentado à população mais pobre e à menos informada como sendo o “pobretão trabalhador que chegou lá” mascarando a realidade óbvia que ele é um cidadão que parou de trabalhar e produzir alguma riqueza há 30 anos, nunca exerceu um cargo público executivo, é uma pessoa que fala mais do que faz, utiliza-se do exagero verbal, das meias-verdades, da desqualificação dos desafetos, do linguajar propositalmente simplório. Quando alguém ressalta estes defeitos graves de sua personalidade, logo é taxado de preconceituoso pelo sistema de contra-informação. E ele usa isto de forma pragmática e com falsa modéstia. Diz que aprendeu muito com o exercício da presidência, não sabia que a burocracia do governo era tão complicada a ponto de retardar seus grandiosos planos (nesse ponto, de forma sub-liminar, culpa seus antecessores e exime-se de suas próprias fraquezas), mascarando com isso a sua incompetência e a de seus auxiliares.

Concluindo

É esse o tripé que sustenta a popularidade de Lula, que o incentiva e ao grupo que o rodeia a pensar numa continuidade de poder. O avanço da economia mundial deve persistir por mais uns 4 ou 5 anos, em função do crescimento chinês. Enquanto os chineses necessitarem de alimentos e matérias-primas para garantir seu crescimento, o mercado mundial globalizado manterá os preços das commodities em alta e o Brasil auferirá os dividendos em forma de exportação de minerais e alimentos básicos, garantindo um crescimento mínimo suficiente para manter o “lumpen” aquietado, com inflação baixa.
É exatamente este ponto que me assusta e ao mesmo tempo me incentiva à contraposição desse modelo.
Cientes dessa situação e de sua incompetência em propiciar um crescimento maior que implicaria em perda de poder a médio prazo pois a incompetência de gestão viria à tona de forma contundente e a inflação voltaria pela falta de oferta, os lulo-petistas e seus companheiros se acomodam pois o que está aí é suficiente para garantir o seu futuro. Falta somente calar os críticos independentes pois a oposição política foi neutralizada seja através dos mensalões, seja através da distribuição de cargos públicos, seja pela apropriação pelo lulo-petismo das bandeiras principais que poderiam motivar a maioria dos eleitores a rejeitá-lo. Aos cidadãos da classe média que hoje se indignam e criticam, seria dada a alternativa de se aliar ao sistema através de cargos públicos ou descer ao nível dos “aquietados” pelas esmolas governamentais. Aos recalcitrantes, o pior.

O modelo chinês com nuances castristas é certamente um marco de referência dos lulo-petistas e eles tentarão seguir um caminho similar no seu projeto de poder. Um regime forte, estatizado, majoritário, centralizador, com um viés liberal e capitalista em ilhas isoladas, e sem o principal elemento da democracia. A liberdade ampla e irrestrita de todos os cidadãos.

Liberdade de expressão, de iniciativa, de escolha, inerente à democracia capitalista, tão duramente conquistada pela sociedade após a ditadura militar.

Alguém duvida que eles pensam e agem assim? Se duvidam, vejam os exemplos das últimas semanas face aos últimos acontecimentos. As expressões usadas nos discursos de Lula, as atitudes arrogantes e debochadas de seus auxiliares mais próximos, a extradição dos boxeadores cubanos sem dó nem piedade. Sinais claros de arrogância e desfaçatez, dignos dos piores regimes ditatoriais da história.

Qual o caminho para evitar essa escalada? É assunto para um próximo post porque este já ficou muito longo.

10 comentários:

Ricardo Rayol disse...

Caraca Tunico, uma aula. Mas se tudo isso é sustentado pela China e se o tapete for puxado fico imaginando que realmente o modelo chinês será implantado aqui, pelos próprios.

tunico disse...

Ricardo, a demanda chinesa causou e continua causando a alta no preço de commodities.Muito mais pela quantidade. Se o governo chinês decidiu aumentar por exemplo, o consumo de somente 1 kg de soja a mais para cada habitante por mês, isso significa uma demanda mensal de 1,3 milhões de toneladas ou 15 milhões de toneladas/ano(20% da produção anual brasileira, a segunda maior do mundo). O mesmo acontece com o aço chinês cuja demanda causou aqui no Brasil um aumento de preços interno da ordem de 40% nos ultimos 5 anos.A expectativa desse boom segundo li, parece ter um fim daqui a no máximo 4 anos.A menos que os americanos tenham um processo recessivo antes disso. Aí, como diz o ditado, quando os americanos espirram, o mundo fica resfriado e o Brasil tem uma pneumonia.

Ronald disse...

Opa, cheguei aqui através da Saramar e olha, show de postagens, vou virar freguês. Tenho uns amigos que não entendem quando eu falo que a inflação mundial está sendo patrocinada pela China, eles não acreditam. Vou mandar eles aqui. Valeu

Suzy disse...

Tunico, esse modelo que se utiliza de meios gramscistas para perpetuação no poder, já dominou tudo, com exceção de umas 40 milhões de consciências (se tanto). Acho que o lance é mesmo semear cada vez mais protestos e vaias de um lado, e de outro, começar a quebrar-lhes as pernas com golpes certeiros e a NÃO aprovação da CPMF poderia ser um deles. Isso porque não podemos fazer uma desobediência civil plena, o que está fora da realidade. Temos de golpeá-los no que lhes possibilita o assistencialismo de curral, temos de golpeá-los no que possibilita-os não só a fazer progpaganda massiva a la goebels, mas também no poder de corrupção que os fazem mover praticamente céus e terras: GRANA! E a grana que os faz "fortes" é justamente aquela que nós, contribuintes lhes fornecemos como tal.

Stella disse...

Tunico, você nos deu uma aula
Só temo que se por demanda externa ou interna aumentar o consumo o país implode pela
falta de energia e de infra-estrutura, e se ele não gerar rápido um maior número de empregos ele não terá verbas para sustentar os bolsas.

tunico disse...

Stella, está escrito, não tem saída. Se o Brasil crescer a partir de hoje, mais que 5% durante 3 anos, vai faltar energia. O mesmo com a infra-estrutura. Vai faltar porto, estrada, armazém de estocagem, etc. Não é catastrofismo. É realidade. E esses bostas não estão fazendo nada para evitar. Se o PAC tivesse começado há uns 3 anos, ainda daria. Se as PPP´s tivessem iniciado em 2004, também. Mas até agora não se iniciou nenhuma.Uma hidrelétrica demora 10 anos para produzir a pleno vapor.E pasme, tem termo-elétrica particular construída e parada sem licença ambiental ou porque pelo custo do combustível ficou inviável a operação.As hidrelétricas do Lula, aquelas dos bagres, só vão produzir em 2014, se começarem ainda este ano, o que não parece que vai acontecer.E é pouco.Uma solução a médio prazo seriam as PCH´s. Mas uma PCH só para aprovar nos órgãoes públicos demora um ano para ser aprovada.E que investidor privado é louco de investir sem aprovação??

Blogildo disse...

Acho que o último elemento do tripé é o que pesa mais. Mandou bem, Tunico!
Espero que alguém "desconstrua" essa imagem positiva que esse governo(?) tem.

Rôbérto Pàssos disse...

Olá Tunico, cheguei aqui pelo blog do Reinaldo, parabéns pelo post, vou adicionar você no meu blog. Abração.

Anônimo disse...

Tunico,
parabéns! grande postagem !Acabo de virar fã. As 40 milhões de mentes capazes de exercer a contra-hegemonia em um clima clientelismo e patronagem , tem que atacar os elementos simbólicos que constituem essa hegemonia. Não esqueça, que as palavras de ordem de Sieyés( o terceiro estado é a nação!)Acabou derrubando a bastilha.quiçá essa utopia não vira realidade?
Agora , pensar em UHES de alta queda na Amazônia , sempre terminou em desastre, e umaforma ótima de encher bolsos.
graça campagnolo

João Bosco disse...

Tunico

Muito foi falado nos últimos dias, sobre a pesquisa de opinião do Datafolha.
Há quem veja manipulação de dados, outros interpretam a pesquisa conforme seus interesses, ou sua própria preferência.
Mas foi da Folha mesmo, que alguém lançou uma luz sobre os dados. Trata-se das avaliações de Janio de Freitas, que com muita propriedade, falou da apatia e do conformismo da população mais carente do Brasil.
Para quem lê a Folha, gostaria de recordar também, a coluna de Fernando Barros, que várias vezes, refere-se a Lula, como o "anestesiador geral da nação".
Segundo este raciocínio, Lula consegue com seu discurso, levar todos os problemas de seu governo, para a seara da discussão, ou como queiram da eterna luta entre o capital dos exploradores, contra os oprimidos proletários. Conseguindo levar qualquer debate para este campo, ele consegue afastar dele próprio, a responsabilidade da falta de gestão, bem como os escândalos envolvendo aliados passam a seu lado. Aqui cabe a famosa frase: "eu não sabia", frase que ele passou a usar, inclusive nos casos onde a acusação era a falta de gerenciamento.
Voltando a Janio de Freitas, este mostra com clareza, que a população carente, enfrenta filas e o descaso do governo sem reclamar, já que está acostumada a sofrer, e resigna-se a isto.
É uma parcela de nossa população, que não tem a quem reclamar, quando consegue um hospital publico, e tem mau atendimento, o brasileiro carente já se sente um priveligiado, afinal conseguiu uma atenção.
Esta parcela da população só tem voz uma única vez, é quando lhe perguntam em quem vai votar para presidente. Lula conseguiu colar seu nome ao beneficio pago, portanto, vai demorar a ter problemas em pesquisas.
Quanto a parcela da população que pode reclamar, não deve nunca resignar-se. Esta parcela, chamada da classe média, é na realidade a única esperança daquela grande parcela resignada, por que somente esta "classe média", tem o real interesse da justiça social, e da integração de toda população brasileira, para usufruir as vantagens de um eventual progresso de nossa nação.