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sábado, fevereiro 19, 2005

Um “causo"– Um grande mico que eu paguei e não esqueço

Em 1969, eu tinha 17 anos. A minha turma de amigos , vizinhos da Rua Galeno de Almeida, bairro do Sumaré em São Paulo e adjacências, se constituía de 19 pessoas, sendo somente 2 garotas, todos na mesma faixa de idade. Um desses meus amigos, mais velho 3 anos, estudava na FEI e trouxe para a turma alguns colegas que moravam perto. Um desses colegas, o Flávio, tinha carro e isso era uma grande vantagem pois a gente saía em bando nos poucos carros que eram disponíveis( poucos pais emprestavam seus carros pra gente) para paquerar na Rua Augusta. Me lembro bem, era um Fusca 1300 , cor bege escura, padrão “merda” com rodas largas e escapamento Kadron, saída lateral. O Flávio tinha um cunhado(irmão da namorada dele), que trabalhava na redação da nova revista lançada pela Editora Abril, em substituição à revista Realidade, cassada pela ditadura. Chamava-se VEJA. Eu tinha uma certa atividade político-estudantil no colégio, meio cerceada e velada e uma profunda antipatia pela ditadura que estava instaurada no país e esse rapaz, estava animadíssimo com a nova revista que segundo ele, viria a ser o novo baluarte da imprensa contra os abusos do governo.

Apesar de mais velho, ele aparecia nas nossas rodinhas e gostávamos de ouvir suas histórias e o admirávamos por ser com tão pouca idade um jornalista de sucesso.
Certa noite, ele apareceu lá na rua, procurando a turma para convidar-nos a ir a um barzinho comemorar o lançamento da revista. Só estava eu. A turma toda estava ou namorando ou fazendo outras coisas. Ele então me convidou. Estava com uma amiga(não sei se namorada ou paquera). Fomos então ao Carcará lá na Rua Tutóia, perto da Rua Manoel da Nóbrega, tomar chopp. Era o boteco da moda na época. As “inteligentsias” se reuniam lá pra beber, falar mal da vida alheia e conspirar contra o governo. Eu achei o máximo. Convidado por um cara muito mais velho(uns 5 anos mais velho), jornalista, era uma honra para mim. Ainda mais eu sendo “de menor”.

Lá fomos. Eu não havia jantado. Dei uma desculpa em casa dizendo que voltaria cedo e ia sair com os amigos pra comer um hambúrguer no PASV( a lanchonete da moda no bairro era o PASV , na Rua Teodoro Sampaio- hoje é loja de móveis).
E, apesar de já ter tomado meus chopinhos e cervejinhas poraí, não estava acostumado com a chopada em profusão que aconteceu. À medida em que a conversa intelectual na mesa foi se desenvolvendo, eu ia tomando chopp após chopp sem colocar uma só batatinha na boca. Eu não perdi a lucidez, aliás nunca perco nem que tome um barril de chopp sozinho mas o meu estomago se revirou de tal forma, que lá pelas tantas, sem prévio aviso, o chopp voltou todo, de uma só vez, em cima da mesa. Não deu tempo nem de correr pro banheiro. Um puta vexame!!!
Me lembro que a moça, me olhou com um misto de desprezo e nojo(talvez pensasse, “o que o Edgar foi fazer trazendo este moleque conosco?”) e eu me senti super mal, envergonhado.
Resultado: estraguei a comemoração, porque ele teve que me trazer de volta pra casa. Ainda bem que ele foi discreto pois se contasse pros meus amigos o episódio, eu seria objeto de profundas gozações e até hoje ninguém se lembra ou comenta isso. Mas este fato me marcou.
Talvez por isso, eu sou assinante da VEJA até hoje. São mais de 30 anos. Será que é uma compensação pelo mico?

Um comentário:

Dedé disse...

Você chegou a frequentar o Riviera, na frente do Belas Artes?
Era lá que meus amigos e eu, todos nos achando "salvadores da pátria", nos encontrávamos e discutíamos a SOLUÇÃO para todos os problemas do país. Ah, que bons tempos, Tunico...